Tanje o sino, tanje, numa voz de choro,
Numa voz de choro... tão desconsolado...
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo... Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tanje numa voz de choro...
Pequenino, acorda!
Como o sono apaga o teu olhar inerte
Sob a luz da tarde tão macia e grata!
Pequenino, é pena que não possas vêr-te..
Como vais bonito, de vestido novo
Todo azul celeste com debruns de prata!
Pequenino, acorda! E gostarás de vêr-te
De vestido novo.
Como aquela imajem de Jesus, tão lindo,
Que até vai levado em cima dos andores
Sobre a fronte loura um resplendor fuljindo,
— Com a grinalda feita de botões de rozas
Trazes na cabeça um resplendor de flores...
Pequenino, acorda! E te acharás tão lindo
Florecido em rozas!
Tange o sino, tanje, numa voz de choro,
Numa voz de choro... tão desconsolado...
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino levam-te dormindo... Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tanje numa voz de choro...
Pequenino, acorda!
Que caminho triste, e que viajem! Alas
De ciprestes negros a gemer no vento;
Tanta boca aberta de famintas valas
A pedir que as fartem, a esperar que as encham.
Pequenino, acorda! Recupera o alento,
Foje da cobiça dessas fundas valas
A pedir que as encham.
Vai chegando a hora, vai chegando a hora
Em que a mãi ao seio chama o filho... A espaços,
Badalando, o sino diz adeus, e chora
Na melancolia do cair da noute;
Por aqui, só cruzes com seus magros braços
Que jamais se fecham, hirtos sempre... E' a hora
Do cair da noute...
Pela Ave Maria, como procuravas
Tua mãü... Num éco de sua voz piedoza,
Que suaves cousas que tu murmuravas,
De mãosinhas postas, a rezar com ela...
Pequenino, em caza, tua mãi saudoza
Reza a sós... E* a hora quando a procuravas....
Vae rezar com ela!
E depois... teu quarto era tão lindo! Havia
Na janela jarras onde abriam rozas;
E no meio a cama, toda alvor, macia,
De lençóes de linho no colxão de penas.
Que acordar alegre nas manhas cheirozas!
Que dormir suave, pela noute fria,
No colxão de penas...
Tanje o sino, tanje, numa voz de choro,
Numa voz de choro... tão desconsolado...
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo... Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tanje numa voz de choro...
Pequenino, acorda!
Porque estacam todos dessa cova a beira?
Que é que diz o padre numa lingua estranha?
Porque assim te entregam a essa mão grosseira
Que te agarra e leva para a cova funda?
Porque assim cada homem um punhado apanha
De caliça e espalha-a, debruçado á beira
Dessa cova funda?
Vais ficar sozinho no caixão fechado...
Não será bastante para que te guarde?
Para que essa terra que jazia ao lado
Pouco a pouco rola, vai desmoronando?
Pequenino, acorda! — Pequenino!... E' tarde.
Sobre ti cái todo esse montão que ao lado
Vai desmoronando...
Eis fechada a cova. Lá ficaste... A enorme
Noute sem aurora todo amortalhou-te.
Nem caminho deixam para quem lá dorme,
Para quem lá fica e que não volta nunca...
Tão sozinho sempre por tamanha noute!...
Pequenino, dorme! Pequenino dorme...
Nem acordes nunca!
Numa voz de choro... tão desconsolado...
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo... Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tanje numa voz de choro...
Pequenino, acorda!
Como o sono apaga o teu olhar inerte
Sob a luz da tarde tão macia e grata!
Pequenino, é pena que não possas vêr-te..
Como vais bonito, de vestido novo
Todo azul celeste com debruns de prata!
Pequenino, acorda! E gostarás de vêr-te
De vestido novo.
Como aquela imajem de Jesus, tão lindo,
Que até vai levado em cima dos andores
Sobre a fronte loura um resplendor fuljindo,
— Com a grinalda feita de botões de rozas
Trazes na cabeça um resplendor de flores...
Pequenino, acorda! E te acharás tão lindo
Florecido em rozas!
Tange o sino, tanje, numa voz de choro,
Numa voz de choro... tão desconsolado...
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino levam-te dormindo... Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tanje numa voz de choro...
Pequenino, acorda!
Que caminho triste, e que viajem! Alas
De ciprestes negros a gemer no vento;
Tanta boca aberta de famintas valas
A pedir que as fartem, a esperar que as encham.
Pequenino, acorda! Recupera o alento,
Foje da cobiça dessas fundas valas
A pedir que as encham.
Vai chegando a hora, vai chegando a hora
Em que a mãi ao seio chama o filho... A espaços,
Badalando, o sino diz adeus, e chora
Na melancolia do cair da noute;
Por aqui, só cruzes com seus magros braços
Que jamais se fecham, hirtos sempre... E' a hora
Do cair da noute...
Pela Ave Maria, como procuravas
Tua mãü... Num éco de sua voz piedoza,
Que suaves cousas que tu murmuravas,
De mãosinhas postas, a rezar com ela...
Pequenino, em caza, tua mãi saudoza
Reza a sós... E* a hora quando a procuravas....
Vae rezar com ela!
E depois... teu quarto era tão lindo! Havia
Na janela jarras onde abriam rozas;
E no meio a cama, toda alvor, macia,
De lençóes de linho no colxão de penas.
Que acordar alegre nas manhas cheirozas!
Que dormir suave, pela noute fria,
No colxão de penas...
Tanje o sino, tanje, numa voz de choro,
Numa voz de choro... tão desconsolado...
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo... Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tanje numa voz de choro...
Pequenino, acorda!
Porque estacam todos dessa cova a beira?
Que é que diz o padre numa lingua estranha?
Porque assim te entregam a essa mão grosseira
Que te agarra e leva para a cova funda?
Porque assim cada homem um punhado apanha
De caliça e espalha-a, debruçado á beira
Dessa cova funda?
Vais ficar sozinho no caixão fechado...
Não será bastante para que te guarde?
Para que essa terra que jazia ao lado
Pouco a pouco rola, vai desmoronando?
Pequenino, acorda! — Pequenino!... E' tarde.
Sobre ti cái todo esse montão que ao lado
Vai desmoronando...
Eis fechada a cova. Lá ficaste... A enorme
Noute sem aurora todo amortalhou-te.
Nem caminho deixam para quem lá dorme,
Para quem lá fica e que não volta nunca...
Tão sozinho sempre por tamanha noute!...
Pequenino, dorme! Pequenino dorme...
Nem acordes nunca!
Vicente de Carvalho