sábado, 12 de abril de 2014

PEQUENINO MORTO

Tanje o sino, tanje, numa voz de choro, 
Numa voz de choro... tão desconsolado... 
No caixão dourado, como em berço de ouro, 
Pequenino, levam-te dormindo... Acorda! 
Olha que te levam para o mesmo lado 
De onde o sino tanje numa voz de choro... 
Pequenino, acorda! 

Como o sono apaga o teu olhar inerte 
Sob a luz da tarde tão macia e grata! 
Pequenino, é pena que não possas vêr-te.. 
Como vais bonito, de vestido novo 
Todo azul celeste com debruns de prata! 
Pequenino, acorda! E gostarás de vêr-te 
De vestido novo. 

Como aquela imajem de Jesus, tão lindo, 
Que até vai levado em cima dos andores 
Sobre a fronte loura um resplendor fuljindo, 
— Com a grinalda feita de botões de rozas 
Trazes na cabeça um resplendor de flores... 
Pequenino, acorda! E te acharás tão lindo 
Florecido em rozas! 

Tange o sino, tanje, numa voz de choro, 
Numa voz de choro... tão desconsolado... 
No caixão dourado, como em berço de ouro, 
Pequenino levam-te dormindo... Acorda! 
Olha que te levam para o mesmo lado 
De onde o sino tanje numa voz de choro... 
Pequenino, acorda! 

Que caminho triste, e que viajem! Alas 
De ciprestes negros a gemer no vento; 
Tanta boca aberta de famintas valas 
A pedir que as fartem, a esperar que as encham. 
Pequenino, acorda! Recupera o alento, 
Foje da cobiça dessas fundas valas 
A pedir que as encham. 

Vai chegando a hora, vai chegando a hora 
Em que a mãi ao seio chama o filho... A espaços, 
Badalando, o sino diz adeus, e chora 
Na melancolia do cair da noute; 
Por aqui, só cruzes com seus magros braços 
Que jamais se fecham, hirtos sempre... E' a hora 
Do cair da noute... 

Pela Ave Maria, como procuravas 
Tua mãü... Num éco de sua voz piedoza, 
Que suaves cousas que tu murmuravas, 
De mãosinhas postas, a rezar com ela... 
Pequenino, em caza, tua mãi saudoza 
Reza a sós... E* a hora quando a procuravas.... 
Vae rezar com ela! 

E depois... teu quarto era tão lindo! Havia 
Na janela jarras onde abriam rozas; 
E no meio a cama, toda alvor, macia, 
De lençóes de linho no colxão de penas. 
Que acordar alegre nas manhas cheirozas! 
Que dormir suave, pela noute fria, 
No colxão de penas... 

Tanje o sino, tanje, numa voz de choro, 
Numa voz de choro... tão desconsolado... 
No caixão dourado, como em berço de ouro, 
Pequenino, levam-te dormindo... Acorda! 
Olha que te levam para o mesmo lado 
De onde o sino tanje numa voz de choro... 
Pequenino, acorda! 

Porque estacam todos dessa cova a beira? 
Que é que diz o padre numa lingua estranha? 
Porque assim te entregam a essa mão grosseira 
Que te agarra e leva para a cova funda? 
Porque assim cada homem um punhado apanha 
De caliça e espalha-a, debruçado á beira 
Dessa cova funda? 

Vais ficar sozinho no caixão fechado... 
Não será bastante para que te guarde? 
Para que essa terra que jazia ao lado 
Pouco a pouco rola, vai desmoronando? 
Pequenino, acorda! — Pequenino!... E' tarde. 
Sobre ti cái todo esse montão que ao lado 
Vai desmoronando... 

Eis fechada a cova. Lá ficaste... A enorme 
Noute sem aurora todo amortalhou-te. 
Nem caminho deixam para quem lá dorme, 
Para quem lá fica e que não volta nunca... 
Tão sozinho sempre por tamanha noute!... 
Pequenino, dorme! Pequenino dorme... 
Nem acordes nunca!

Vicente de Carvalho